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A Quarta Dimensão

Data de publicação: 03 de set

Categoria: Contos

Categoria: Publicações

 

___Você está vendo o universo em quatro dimensões – disse-me Heron. E para me explicar o que significava uma quarta dimensão ele pegou uma folha de papel em branco e colocou-a sobre a mesa.

 

___ Imagine um ser de duas dimensões. Ele seria como esta folha de papel. Para ele somente existiria, largura e comprimento e seu mundo seria como a superfície desta mesa. Nem para ele nem também para seus companheiros existiria a terceira dimensão.

___Que seria a altura! – disse eu.

___Exatamente. Este ser imaginário reconheceria os objetos de seu mundo e até os seus companheiros através de um risco, e se, por um feliz acaso, ele fosse elevado seria o mesmo que trazê-lo à terceira dimensão – continuou Heron, suspendendo um pouco a folha de papel. Ele veria, do alto, todos os seus companheiros e ficaria maravilhado com o horizonte que se descortinava ante seus olhos. Os objetos agora se apresentavam com profundidade, largura e altura. Ficaria emocionado ao ver uma pessoa ou uma mesa em perspectiva, pois nunca poderia imaginar que existisse tal coisa.

            Esperando um instante para que eu pudesse imaginar tal situação e colocando a folha de papel outra vez sobre a mesa, Heron continuou:

___Quando ele voltasse para o seu mundo de apenas duas dimensões se apressaria em contar aos seus companheiros que existia uma terceira dimensão relatando com detalhes todas as maravilhas que tinha presenciado.

___ Ele seria considerado um louco pelos seus companheiros – eu disse

___É certo que sim. – confirmou Heron. E é isto que está acontecendo com você agora, e por isso está tão maravilhada. Você está vendo o mundo da quarta dimensão.

___Estou mesmo assombrada – pensei eu. Este é um mundo de quatro dimensões: largura, comprimento, altura e a tão sonhada quarta dimensão que Einstein considerou como o tempo. Não acreditava que tudo era real, parecia mais um sonho. Era tudo diferente, indescritível mesmo. As pessoas e os objetos pareciam que traziam uma tonalidade de cor nunca vista. As formas indeléveis e ao mesmo tempo consistentes mostravam contradições sutis e inexplicáveis. Eu não queria admitir, mas era como se estivesse entre o céu e a terra, ou entre a terra e o inferno, não sei. Agora, depois das explicações de Heron, este ser amigo que me parece irreal e ao mesmo tempo tão real eu sei o que aconteceu e o que contribuiu para eu estivesse aqui.

Tudo aconteceu há uma semana atrás. É que nasci míope. Foi herança da minha mãe. Depois de quase vinte anos usando óculos e lentes de contacto resolvi obedecer ao anúncio de uma clinica de olhos: “Jogue fora seus Óculos e Lentes Fazendo uma Operação de Alta Tecnologia”. Topei jogar fora meus óculos e minhas lentes e passei por uma bateria de exames com os resultados sendo analisados por computadores. No final da maratona para análise dos meus olhos, o jovem médico disse-me com um sorriso de satisfação que eu poderia fazer a operação. Pacientemente ele explicou-me que a operação dos olhos seria feita por raio Laser. Os computadores já tinham feitos todos os cálculos que determinavam quanto de fração de milímetros da minha córnea teria que ser queimada pelo laser. Acrescentou que esta operação era feita usando os equipamentos mais modernos do mundo e seria precisa e rápida, sendo concluída em duas etapas para não estressar o paciente. Primeiro operaria o olho esquerdo, e no prazo de uma semana, após a primeira intervenção seria operado o olho direito.

Mesmo com toda a tecnologia empregada no processo eu fiquei com a incumbência de pingar logo no dia da operação, de manhã, e de duas em duas horas, um colírio no olho que seria operado.

Pensei que somente eu faria operação da visão, mas no dia marcado cheguei no horário estipulado e encontrei o consultório cheio. Não estava enxergando muito bem devido ao colírio que tinha passado no olho, mas certamente tinham uns dez pacientes aguardando a chamada da enfermeira para a operação.

Foi logo no início da chamada que aconteceu um pequeno problema. Percebi que a enfermeira, já um pouco nervosa, escutava as explicações da primeira paciente a ser operada. Era uma moça que não tinha entendido muito bem as recomendações do médico e ao invés de pingar o colírio no olho esquerdo, ela vinha pingando desde a manhã o colírio no olho direito.

___Mas hoje os aparelhos estão programados para fazer operações de olho esquerdo! – dizia a enfermeira, que se mostrava aborrecida por não saber o que fazer para resolver o problema.

Depois de pensar um pouco ela disse à paciente:

 ___Acho que podemos resolver esse problema agora. Eu vou pingar o colírio no seu olho esquerdo e você vai fazer a operação por último, sendo assim terá tempo para o remédio fazer efeito.

A paciente, já um pouco constrangida, concordou relutantemente.

A enfermeira, que estava satisfeita por se livrar de um problema que não tinha causado, logo começou a pingar o colírio no olho da paciente e, simultaneamente, olhando para a ficha, chamou o meu nome indicando para que eu me dirigisse à sala de operação.

A operação não demorou muito tempo e o raio laser, assim como tinha dito o médico, queimou a minha córnea com alta precisão, só que foi com os cálculos feitos pelos computadores para a outra paciente. Logo ao término da operação foi colocada uma lente de proteção no olho operado o que me impedia de enxergar com ele. Mas apesar de tudo fui para casa contente, pois só em pensar que poderia me livrar dos óculos já me deixava feliz da vida, mesmo que naquele instante estivesse enxergando apenas com o olho direito.

Depois de dois dias em casa com as cortinas fechadas, sem ligar televisão e com a visão apenas com o olho direito, foi com muito alivio que voltei ao médico para retirar a lente. Foi aí que comecei a ver coisas. Primeiro era algo embaçado, fantasmagórico e que se confundiam com os objetos do nosso mundo. Parecia que eu estava vendo espíritos ou seres extras – terrestres sobrenaturais. Mas tudo ficou real mesmo quando fiz a operação do olho direito e o medico cobriu-o com a lente. Apenas com a visão do olho esquerdo fiquei enxergando com clareza a quarta dimensão. A partir daí fiz comunicação com seres como Heron.

Contei para as pessoas como é o mundo da quarta dimensão, a respeito dos seres, de Heron, mas ninguém acreditou no que eu estava falando. Nem minha mãe, nem meu irmão e nem mesmo o meu namorado. Eu acho que eles estão me considerando louca.

Mas estou tranqüila, Heron me disse que quando retirarem a lente do olho direito algo vai acontecer. Terei um olho que me dará visão do mundo da quarta dimensão e outro que me dará visão do mundo da terceira dimensão.

Estou curiosa para saber como vai ser isto. Heron disse-me que o meu cérebro vai escolher, mas para qual mundo eu irei?

João Inácio da Silva filho  —  Fevereiro de 2003

Obs. O conto “A quarta Dimensão” foi originalmente publicado em novembro de 2005 no Jornal “Clube da Escrita” da Universidade Santa Cecília -UNISANTA